O que acontece quando o lazer público de uma cidade do interior se transforma no ativo imobiliário privado da cúpula política da capital? Uma investigação revelada pelo Blog do Manoel Medeiros traz à tona um esquema que liga diretamente cinco dos secretários mais poderosos do prefeito João Campos (PSB) a um empreendimento inusitado em Chã Grande, no Agreste pernambucano.
O alvo da polêmica é o Sítio Pedra da Onça. Tradicionalmente conhecido como um destino turístico com bicas e banhos naturais, o local foi fechado ao público após a construção de uma via turística nas proximidades. Agora, descobriu-se que o nome do antigo atrativo batiza uma empresa privada: a Sítio Pedra da Onça Ltda., cujos sócios são ninguém menos que os braços direitos do gestor recifense.
Um Sítio em um Coworking?
Apesar de levar o nome de uma propriedade rural em Chã Grande, a empresa tem seu endereço fiscal registrado em um coworking no bairro do Poço da Panela, Zona Norte do Recife. Segundo dados da Receita Federal, a principal atividade econômica do “sítio” não é a agricultura, mas sim a “compra e venda de imóveis próprios”, além de loteamentos e incorporações.
O “Núcleo Duro” e o Orçamento de R$ 1,48 Bilhão
A sociedade empresarial não envolve apenas assessores comuns, mas a própria cúpula que decide o destino de bilhões de reais na capital pernambucana. De acordo com o Blog do Manoel Medeiros, os sócios são:
-
Gustavo Monteiro: Secretário de Articulação Política (o “homem forte” do governo).
-
Antônio Limeira Filho: Chefe da Assessoria Especial de João Campos.
-
Daniel Saboya: Presidente da Emlurb (responsável por lixo e iluminação).
-
Luciano Temporal Carneiro: Secretário-Executivo de Ordem Pública.
-
Bruno Delgado de Souza: Secretário-Executivo de Transformação Digital.
Juntos, esses gestores têm a responsabilidade de gerenciar orçamentos que somam R$ 1,48 bilhão em 2026. A relação ética entre gerir contratos públicos bilionários e manter uma empresa privada de especulação imobiliária é o centro dos questionamentos.
Infração Legal: A Nomeação de Bruno Delgado
A polêmica ganha contornos de ilegalidade administrativa com a nomeação de Bruno Delgado de Souza, em 16 de dezembro de 2025. Diferente dos outros sócios, que podem figurar apenas como cotistas, Bruno é o sócio-administrador da Sítio Pedra da Onça Ltda.
De acordo com o Estatuto dos Servidores Municipais do Recife (Lei nº 14.728/1985), é expressamente proibido que servidores em atividade (sejam efetivos ou comissionados) atuem como gerentes ou administradores de empresas privadas. Esta infração descortina uma falta de transparência e rigor na seleção dos nomes que compõem a alta gestão de João Campos.
De Paraíso Turístico a Loteamento Fechado
A transformação do Sítio Pedra da Onça em Chã Grande de um espaço público para um “estoque imobiliário” privado levanta sérias dúvidas sobre o uso de informações privilegiadas e o impacto no turismo local. O local, que outrora recebia banhistas, hoje tem acesso restrito, coincidindo com a passagem de uma via turística que valorizou a área.
O silêncio sobre a real função da empresa e a falta de lastro visível para as atividades agropecuárias declaradas (como criação de bovinos e produção de sêmen equino) apenas aumentam a pressão por respostas.
A sociedade pernambucana aguarda esclarecimentos da Prefeitura do Recife sobre como seus principais secretários conciliam a gestão de uma metrópole com negócios imobiliários nebulosos no interior do estado.







